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A Biblioteca que herdei será valiosa?

2021-02-06

A Biblioteca que herdei será valiosa?

Digamos que herdou recentemente a Biblioteca do seu Avô, do seu Pai, de um parente mais distante, de um vizinho ou de um amigo de família. Se acaso não está familiarizado com o mercado do livro antigo e não tem muita experiência a comprar em alfarrabistas, é possível que se sinta perdido entre caixas e estantes.

Suponho que não haja profissional, seja ele livreiro ou até bibliotecário, que não tenha uma história sobre ter sido abordado por proprietários que acreditavam ter livros valiosos devido à sua antiguidade ou ideias erradas sobre a sua importância.

A verdade é que conceitos como “importância” e “valor” são conceitos bastante relativos, em especial no que diz respeito aos livros. A resposta à pergunta não é, por isso, simples. Ainda assim, algumas dicas poderão ajudar o herdeiro nessa benfazeja tarefa de vender os livros herdados.

Livros antigos não são necessariamente raros, nem valiosos

É, porventura, o conceito mais importante a reter: um livro antigo (qualquer que seja o conceito de antigo) não é necessariamente raro, nem necessariamente valioso. Os Lusíadas que estão na família há mais três gerações é um dos exemplos mais comuns. Há muitas e muito variadas edições do poema clássico da nossa literatura. Só porque é Camões, pode não ser do tempo de Camões. E mesmo que seja do tempo de Camões, isto é, do século XVI, é possível que o seu valor não seja o esperado se o livro for uma Bíblia de tipo comum.

Muitos livros antigos são bastante comuns, o que significa que não possui interesse para o alfarrabista ou para uma biblioteca pública ou arquivo. Ainda que o livro possa ser raro, é possível que seja apenas procurado pelo seu proprietário e por mais ninguém – Os Lusíadas da Bisavó -, ou que esteja num estado de conservação que torna o seu valor quase residual.

Estado de Conservação

Isto leva-nos a um dado muitíssimo importante no que diz respeito aos livros antigos: o estado de conservação. Cada livro, na sua época, foi publicado com um conjunto de características que só se totalmente conservadas, potenciam o seu valor para o extremo superior. Por exemplo, obras literárias como a Mensagem de Fernando Pessoa, publicada originalmente em 1934, foram publicadas com uma simples, mas muito bonita capa de brochura. Uma falha nessa capa ou, mais grave, a sua total ausência e o valor de uma obra tão importante como essa desce para poucos euros e nenhum interesse. Obras mais antigas, impressas nos séculos XVI, XVII ou XVIII, expostas aos elementos durante muito mais tempo, se possuírem manchas de água, vestígios de traça ou encadernações estragadas sofrerão do mesmo mal.

No sentido inverso, a primeira edição do Amor de Perdição com uma extensa dedicatória de Camilo à sua mulher, Ana Plácido numa bonita encadernação inteira de marroquim vermelho, preservando as capas de brochura e terá uma bela maquia para umas merecidas férias.

Talvez pense que estou a dizer-lhe que a sua herança não tem qualquer valor. Ainda que isto seja verdade para uma grande maioria das bibliotecas herdadas, mantenha o espírito aberto porque existem, de facto, livros bastante raros e bastante valiosos. Se pensa que os livros que possui têm algum valor, não hesite em contactar um profissional ou a fazer as suas consultas com as muitas ferramentas que existem hoje online.

Deixo duas observações finais. Caso realize pesquisas na internet, não esqueça de verificar que a edição é exactamente a mesma e de verificar não apenas o preço mais alto, mas também o mais baixo. E se consultar um profissional, não fique desapontado nem pense mal do profissional que consultou se o valor oferecido não corresponder ao valor que pensou ter.

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