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Charlotte Delbo

2021-02-07

Charlotte Delbo

Desde há alguns anos que tenho gasto algum do meu tempo livre a adquirir e a ler, até agora sem grandes tiques de coleccionador, um conjunto solto de memórias de prisioneiros em campos de concentração do século XX, em especial dos campos soviéticos e nazis.

Convém dizer que este meu ímpeto caótico tem mais tempo que as recentes modas romanceadas da história do povo judaico nos campos alemães, sobre as quais, nuns casos não tenho opinião, noutros, mesmo para alguém que não sabe muito, mas já leu mais de três linhas sobre o assunto, chegam ao nojo.

O romance, neste caso, não me interessa.

De entre esses relatos, no lado do Gulag, mais lá para leste, e tão arrepiante quanto a sua contra-parte ocidental, Alexander Soljenítsin é o clássico dos clássicos. No lado ocidental, são muitos os relatos conhecidos, especialmente Anne Frank ou Primo Levi.

Cheguei a Charlotte Delbo por acaso, numa edição recente da BCF, julgo que a primeira tradução para português. Um daqueles casos em que são os livros que nos encontram, não nós que encontramos os livros e que dificilmente acontecem num website, mas acontecem sempre numa livraria.

Charlotte Delbo Retrato

Charlotte Delbo
1913-1985

Charlotte Delbo nasceu francesa em 1913. Em 1932 ingressou na Liga Francesa das Jovens Mulheres Comunistas tendo conhecido nesse contexto o homem com quem casou dois anos depois, George Dudach, membro activo da resistência francesa e com ligações ao poeta Louis Aragon. Em Maio de 1942, o seu marido é assassinado. Delbo foi presa em Janeiro de 1943 com mais 229 mulheres e deportada para Auschwitz e Ravensbrück onde esteve durante 27 meses. Foi uma das prisioneiras dos campos Nazis não judias, mas que sofreu exactamente os mesmos horrores. Das 229 companheiras, apenas 49 sobreviveram.

Ligada à cultura, citava e encenava Molière de cor para suportar as agruras dos dias e das noites e, já liberta, decidiu escrever as suas memórias escrevendo na primeira página de um caderno "Nenhum de Nós há-de Voltar", o primeiro título da trilogia que viria a formar este volume "Auchwitz e Depois".

Trabalhou para as Nações Unidas até 1960, ano em que regressaria a Paris para trabalhar com Henri Lefebvre. Faleceu em 1985.

Auschwitz e Depois é, como se disse, uma trilogia que aborda o tempo de prisão, mas também a difícil vida depois da libertação, profundamente marcada pela experiência nos campos de concentração.

O que mais me impressionou desde as primeiras linhas foi a beleza da sua prosa (e algumas poesias). Logo a abrir, escreve Delbo:

«Há as pessoas que chegam. Procuram com o olhar no meio da multidão das que esperam aquelas que as esperam. Beijam-nas e dizem que estão cansadas da viagem. Há as que partem. Dizem adeus às que ficam e beijam as crianças. [...] Há pessoas que chegam e há pessoas que partem. Mas há uma estação onde os que chegam são precisamente os que partem uma estação onde os que chegam nunca chegaram, onde os que partiram nunca voltaram. É a maior estação do mundo». (p. 13)

A incompatibilidade que achei existir entre o horror vivido pelos presos nos campos de concentração Nazi e uma frase bela chocou-me. Claro que me senti tocado pela prosa de Levi ou Viktor Frankl, mas nada comparado com o contraste inconcebível entre o belo e o horrível do que se descreve.

«Ó vós que sabeis
sabíeis que a fome faz brilhar os olhos que a sede os esmorece
Ó vós que sabeis
sabíeis que se pode ver a nossa mãe morta e ficar sem lágrimas
Ó vós que sabeis
sabíeis que de manhã se quer morrer
que à noite se tem medo
Ó vós que sabeis
sabíeis que um dia é mais do que um ano
um minuto mais do que uma vida
Ó vós que sabeis
sabíeis que as pernas são mais vulneráveis do que os olhos
os nervos mais duros do que os ossos
o coração mais sólido do que o aço
Sabíeis que as pedras do caminho não choram
que só há uma palavra para o pavor
só uma palavra para a angústia
Sabíeis que o sofrimento não tem limites
o horror fronteiras
Sabíeis
Vós que sabeis.» [p. 23]

Quanto mais leio descrições e memórias sobre campos de concentração, mais me chega à memória Delbo para quem, os que chegam, "esperam o pior - não esperam o inconcebível". Olhar para os campos de concentração nazi como algo horrível ou desumano nunca, mesmo nunca, fará justiça ao "inconcebível". Eu nunca saberei, nós nunca saberemos. Chocam-me e alguns casos enojam-me, os que do alto das suas célebres cadeiras fazem afirmações concebíveis.

É algo que trarei comigo de Delbo. Sei que o "inconcebível" pode não ser verdadeiro, mas é verídico. (*)

Charlotte Delbo Retrato

Sem dúvida, um dos melhores livros de memórias de campos de concentração com que me encontrei e um belo livro sobre um tema inconcebível.

(*) A epígrafe do primeiro volume da trilogia é "Hoje não tenho a certeza de que aquilo que escrevi seja verdadeiro. Tenho a certeza de que é verídico."

DELBO, Charlotte, Auschwitz e Depois, trad. de Joana Morais Varela, BCF Editores, Lisboa, 2018

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