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Relação de Pedro Teixeira

2021-02-05

Relação de Pedro Teixeira

Entre as descrições de viagem ao Oriente nos séculos XVI e XVII, as escritas por viajantes portugueses ocupam um lugar de grande destaque, contribuindo como poucos para abrir a porta daquele mundo aos olhos cultos da Europa. No que diz respeito ao Médio Oriente, existem menos obras e menos conhecidas, mas seguramente não menos importantes.

A primeira delas é a obra de Fr. Pantaleão de Aveiro publicado em 1593 intitulado Itinerário da Terra Santa e suas particularidades.

Em 1565, o médico Martim Afonso realiza a sua viagem desde Cochim até Lisboa, narrando-a numa obra intitulada Itinerário da ilha de Ormuz até Tripoli na Barberia e d'ahi até Rochela de França, texto que apenas foi publicado pela primeira vez nos Annaes Maritimos e Coloniaes, 5.a série, Lisboa, 1845.

Em 1601 , Fr. Gaspar de S. Bernardino, parte para a Índia e regressa a Lisboa quatro anos depois , descrevendo a sua viagem na obra Itinerário da Índia por Terra até este Reino de Portugal com a Descripção de Hierusalem.

Nicolau Orta Rebelo regressa com Fr. Gaspar a Lisboa e põe por escrito as suas experiências na sua Relação da Jornada que fez da India para o Reino, texto que permaneceu inédito até 1973 por Joaquim Veríssimo Serrão.

Álvaro da Costa, , militar que participou na guerra com os muçulmanos na Pérsia em 1608, escreveu, quando regressou a Portugal em 1611, um […] e que se conserva manuscrito na Biblioteca de Évora.

Tratado de viagem que fez D. Álvaro da Costa da Índia Oriental a Europa nos anos de 1610 e 1611, por via da Pérsia e Turquia

O Pe. Sebastião Manrique ingressou em 1604 no convento de S. Agostinho de Goa, imprimindo as suas impressões de viagem ao oriente em Roma, em 1649, com o título Itinerário de las Missiones del India Oriental.

Finalmente, a descrição do Pe. Manuel Godinho que seguiu quase o mesmo itinerário de Pedro Teixeira na sua Relação do novo caminho que fez por terra, e mar vindo da India para Portugal no anno de 1633.

Pouco se sabe acerca de Pedro Teixeira. São praticamente inexistentes as informações disponíveis e passa despercebido nas fontes da época, sendo a sua Relação a única fonte para traçar a biografia do viajante. Esta sugere que o autor é natural do Norte, ainda que as referências àquela região possam dever-se a uma qualquer visita. Quanto à data de nascimento, a cronologia das viagens sugerem que nasceu por volta de 1565 [cf. LOUREIRO, p. 215].

Alguns sugerem que terá sido mercador, mas é quase certo que iniciou a sua viagem como homem de armas. Chegado à Índia em finais de 1586 terá sido mobilizado para a expedição organizada em Goa com o objectivo de repor a hegemonia portuguesa na costa suaíli. Regressado em Outubro de 1587, embarca de novo em Fevereiro do ano seguinte para Ceilão, sob o comando de Manuel de Sousa Coutinho para socorrer a fortaleza portuguesa de Colombo, voltando a Goa algumas semanas depois. Até 1591 é provável que estivesse ligado a actividades militares [cf. LOUREIRO, p. 216], tendo estado em Cochim e Malabar.

Nada se sabe nos cinco anos seguintes, encontrando-se em Ormuz em 1596, onde esteve, possivelmente, desde 1592 ou 1593. O detalhe das Relaciones, com um íntimo conhecimento da cultura e geografia persas, indica uma prolongada estada naquele território e que só poderiam ter ocorrido entre os anos de 1592 e 1597. Refere que em 1595 estaria empenhado na tradução e comentário de crónicas persas, sendo possível que tenha também desenvolvido um conhecimento mais ou menos detalhado da língua daqueles povos, referindo, muitas vezes, as designações naquela língua de produtos naturais.

Na segunda metade de 1597 passa por Goa e Malaca, onde passou cerca de dois anos e meio, provavelmente ligado ao comércio e em 1600 passa por Manila, em Dezembro desse ano chega a Acapulco onde permanece até Maio de 1601 e no final desse mês a sua viagem final até Sevilha, terminando em Lisboa em Outubro de 1601.

Em Março de 1602 é forçado a retomar a Goa, iniciando a viagem de regresso quatro meses depois, mas desta vez optando pela viagem por terra. Esta extraordinária jornada, contada em detalhe na Relacion del camino que hize dende la Índia hasta Itália, parte integrante das Relaciones, leva-o, sucessivamente a Mascate, Ormuz, Baçorá, Bagdade, Alepo e Veneza, onde chega em Julho de 1605, fixando-se em Antuérpia por razões difíceis de apurar, mas que reunia um conjunto de características atractivas para um homem interessado em assuntos mercantis, história natural e em questões orientais. [cf. LOUREIRO, p. 219]

Relaciones de Pedro Teixeira

Frontispício da Primeira Edição

Escrita com o objectivo de dar a conhecer a história da antiga Pérsia, Teixeira socorreu-se da cronística persa, em particular a "Crónica de Mirkond", obra à qual o autor dedicou vários anos de estudo. Outra fonte persa que foi traduzida e incluída nas Relaciones é uma crónica manuscrita dos reis de Ormuz intitulada Sháhnáma e escrita por Turan Shah.

Assim, nas Relaciones, logo após os primeiros fólios inumerados, aparece a "Relacion, del origen, y descendencia, de los reyes de Persia" (pp. 1 a 376), seguindo-se-lhe uma "Breve relacion de las províncias mas notables y que mas han durado en el sennorio de la Pérsia" (pp. 377-384) e uma lista dos reis da Pérsia até à entrada dos árabes (fólios seguintes não numerados). A segunda parte das Relaciones,  com numeração autónoma, é composta pela "Breve relacion del principio del reyno Harmuz e de sus reys hasta el tiempo en que los portugueses lo ocuparon" (pp. 1-45), seguido da extensa "Relacion del camino que hize dende la India hasta Itália" (pp. 47-215).

As Relaciones foram publicadas pela primeira vez nesta edição de 1610, tendo conhecido edições parciais em latim, em Leida em 1633 e 1647, em inglês, Londres, 1710, 1715 e 1902 e em francês, Paris, 1681. Originalmente escrita em português, o autor decidiu, como explica no seu texto introdutório por conselho de alguns amigos, a traduzir para castelhano a fim de obter uma maior divulgação. Nunca chegou a conhecer tradução portuguesa.

Especialmente na primeira parte da obra, são descritos e esclarecidos assuntos tão variados como a geografia, a botânica, a farmacologia, a linguística e a etnografia das várias partes do mundo por onde passou, sendo um dos mais espantosos monumentos sobre aquela região nos finais do século XVI e obra raríssima e valiosa.

Ficha Bibliográfica

TEIXEIRA (Pedro)

RELACIONES de Pedro Teixeira d'el origen descendencia y succession de los Reyes de Persia, y de Harmuz, y de un viage heccho por el mismo autor dende la India Oriental hasta Italia por tierra.

En Amberes: En casa de Hieronymo Versussen, 1610

†4, A-Z8, Aa8, Bb4, a-n8, o4, p8; [8], 384,[8], 216, [16] pp.; 170 mm.

Bibliografia

CUTILLAS, Jose, «Pedro Teixeira», in: Christian-Muslim Relations 1500-1900, General Editor David Thomas. Consulted online on os November 2018 <http://dx.doi.org/IO.n63/2451""9537 cmrii_COM_27100>

CUTILLAS, Jose, " Relaciones de Pedro Teixeira d'el origen, descendencia y succession de los Reyes de Persia", in: Christian-Muslim Relations 1500-1900, General Editor David Thomas. Consulted online on as November 2018 <http://dx.doi.org/to.n63/2451-9537 cmrii_COM_27101>

FUENTE DEL PILAR, José Javier, «Pedro Teixeira y su Viaje por Mesopotamia» in Arbor CLXXX, 711-712 (Marzo-Abril 2005), 627-643 pp.

LOUREIRO, Rui Manuel, «Pedro Teixeira e as suas Relaciones, Antuérpia, 1610» in Portugal no Golfo Persico, 500 Anos, BN, Lisboa, 2018, 215-221 pp.

LOUREIRO, Rui Manuel, «Drogas asiaticas e praticas medicas nas Relaciones de Pedro Teixeira (Antuerpia, 1610 )», in Revista de Cultura 32 (2009), pp. 24-41

Referências Bibliográficas

Travel and Exploration, 733; Inocêncio, 7, p. 10; Palau, 328892; Relações Portugal e Pérsia, p. 265

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